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sexta-feira, 16 de maio de 2008

9º ANO: BIOGRAFIA "ANTÓNIO GEDEÃO"-POETA

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho
António Gedeão
Nascimento:1906 Lisboa
Morte:1997
País:Portugal
Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a actividade de docente. Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979). Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo. A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia. Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção. Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973). Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago de Espada.

Pedra filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em oiro se agitam,
como estas aves
que gritam em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara graga, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

8º ANO: BIOGRAFIA-MARQUÊS DE POMBAL: HISTÓRIA DE PORTUGAL

Biografia
O homem que alterou o rumo de Portugal em direcção à evolução e ao modernismo.
Sebastião José de Carvalho e Melo
Marquês de Pombal
Sebastião José de Carvalho e Melo viu a luz do dia pela primeira vez no dia 13 de Maio de 1699. Nascido em Lisboa, Sebastião José foi o primeiro filho de Manuel de Carvalho e Ataíde e Teresa Luiza de Mendonça e Mello, fidalgos da província. Desta união nasceram mais onze filhos dos quais dois, além de Sebastião José, se evidenciaram - Paulo de Carvalho e Mendonça (1702-1770) e Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1779), fiéis colaboradores do irmão. Sabe-se que estudou Direito na Universidade de Coimbra e que, desistindo do curso superior, se alistou no exército, mas também por um curto período de tempo. Mudou-se para a cidade de Lisboa e era já na época um homem turbulento. Casou em 1723, contava 24 anos, com D. Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, dez anos mais velha que ele e sobrinha do conde de Arcos, em condições pouco ou nada ortodoxas (começando assim a fazer juz à fama posterior de homem duro e ambicioso, sem escrúpulos). O facto curioso é que rapta a noiva, com quem esteve casado até à morte daquela em 1737, porque a família dela – bastante poderosa - não o via como um bom partido e não o aceitava como genro.
E é devido a esta oposição constante dos pais que o já casal se vê na obrigação de rumar às propriedades que Sebastião e Melo possuía perto de Pombal. Este casamento permitiu-lhe alcançar a tão almejada integração no grupo da alta fidalguia. Mas deste casamento não resultou descendência alguma.
Em 1733, com 34 anos, Sebastião José de Carvalho e Melo, graças à influência de seu tio, o arcipreste Paulo de Carvalho, que o apresentou ao cardeal Mota, ministro e valido do rei D. João V, torna-se sócio da Real Academia da História, com a incumbência de escrever a história de alguns dos monarcas portugueses, tarefa que nunca cumpriu.
Será em Viena de Áustria, em Dezembro de 1745, que celebrará novo casamento, desta feita com a Condessa Maria Leonor Ernestina Daun, filha do Marechal Heinrich Richard, conde de Daun e figura de destaque na Guerra de Áustria. Este casamento foi abençoado pela Imperatriz Maria Teresa assim como pela Rainha Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V, tendo desta forma Sebastião José assegurado o lugar de Secretário de Estado do Governo de Lisboa. Ao contrário do que sucedera com o anterior, deste casamento resultou descendência e Sebastião José foi pai de cinco filhos.
Depois de uma vida bastante longeva, preenchida e repleta de contradições, grandes feitos históricos alternados com práticas monstruosas, e de um sem-número de contributos para o país que o viu nascer, amado por uns e odiado por outros, faleceu na sua casa de Pombal, em Maio de 1782, com 83 anos de idade.

Percurso

A Carreira Política

Foi no ano de 1738 que Sebastião José deu início a uma carreira diplomática que se adivinhava fulgurante. Foi nomeado, a 2 de Outubro, como Ministro Plenipotenciário e Enviado Especial à Corte de Londres, a 8 de Outubro. A 29 de Novembro é-lhe concedida uma audiência pública que visava a consolidação da aliança luso-britânica. Sebastião José substitui o então embaixador Marco António de Azevedo Coutinho. O modo hábil como Sebastião de Carvalho dirigiu em Londres as negociações de que fora encarregado, atraiu a atenção do governo português sobre si, e, quando rebentou entre as cortes de Viena de Áustria e de Roma uma discórdia relativa aos direitos de nomina da cúria, tendo sido o governo português eleito para medianeiro, foi Sebastião José de Carvalho o convocado para dirigir as negociações da corte de Viena. A 17 de Julho de 1745, chega à corte de Viena de Áustria, após receber, a 14 de Setembro de 1744, instruções como Enviado Especial – Ministro Plenipotenciário.
Ao perfazer 50 anos de idade, em 1749, é convocado em Viena para integrar o novo governo de Lisboa, devido ao facto de o então rei, D. João V, ter adoecido gravemente e ao facto de não se dar bem com o clima mais agreste de Viena.
Em 1750, D. João V morre, deixando o trono a seu filho mais velho D. José I.
É neste ano que Sebastião José de Carvalho e Melo regressa de Viena para Lisboa, aproveitando para remodelar o seu palácio em Oeiras.
É também neste ano que é nomeado Secretário dos Negócios Estrangeiros. Poucos dias após o início do seu governo, um incêndio no hospital de Todos-os-Santos, a 10 de Agosto do 1750, vai ser o pretexto para mostrar a fibra de que é feito.
Pombal tinha em Richelieu o seu ideal reformador e tal como ele, desejava consolidar o poder régio com o fim do introduzir alterações profundas no regime do Estado, nem que para isso tivesse de lutar contra tudo e todos que se atravessassem na senda que percorria.
Governou com mão de ferro, impondo a lei a todas as classes, desde os mais pobres até à alta nobreza. Impressionado pelo sucesso económico inglês, tentou, com sucesso, implementar medidas que incutissem um sentido semelhante à economia portuguesa.
Toda a sua gestão foi um perfeito exemplo de despotismo esclarecido, forma de governo que combinava a monarquia absolutista com o racionalismo iluminista.
A 31 de Agosto de 1756 Sebastião José de Carvalho e Melo deixa a Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e passa a ocupar a do Reino, mais abrangente.
Em 6 de Junho de 1759, Sebastião José recebe o título de Conde de Oeiras, como forma de compensação, por parte de D. José I, pela sua grande intervenção contra os que participaram no atentado do próprio monarca.
Apenas em 1769, com 71 anos de idade, lhe foi outorgado o famoso título de Marquês de Pombal.
Em 1777, com a morte do rei D. José I, e o início do reinado de D. Maria I, termina o protagonismo de tantos anos do Marquês. A 4 de Março desse ano é decretada a sua demissão. Em 1779, devido a inúmeras queixas contra si, é-lhe instaurada uma acção judicial na qual é acusado de abuso de poder, corrupção e fraudes várias. O respectivo interrogatório terminará apenas no ano seguinte, em 1780.
Em 1781, todo o processo tem como desfecho o julgamento e a condenação de Marquês de Pombal ao desterro, pelo menos a vinte léguas da Corte. Pombal foi considerado culpado, ainda que o seu estado de saúde e avançada idade não permitissem a aplicação de pena alguma.
O Marquês de Pombal, quando faleceu, assinava-se: Sebastião José do Carvalho e Melo, conde de Oeiras e da Redinha; marquês de Pombal; do conselho do rei; alcaide-mor de Lamego; senhor donatário das vilas de Oeiras, Pombal e Carvalho, e do lugar de Cercosa e dos reguengos e direitos reais de Oeiras e de A-par de Oeiras; direitos do pescado do Porto, de Peniche e de Atouguia da Baleia; das rendas do pescado e direitos da dízima, portagem, jugadas, oitavos de pão e quinais de vinho da vila e porto de Cascais; e das tornas da sisa do pescado e sáveis de Lisboa; padroeiro in solidum da paróquia de Nossa Senhora das Mercês, da cidade de Lisboa, e das de Santa Maria da vila de Carvalho e sua anexa, Santa Maria de Cercosa, no bispado de Coimbra, e do convento de Nossa Senhora da Boa Viagem; comendador das ordens de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. O seu brasão era o dos Carvalho, no qual, em campo azul se vê uma estrela de ouro, entre uma quaderna de crescentes de prata.

As Reformas Implementadas

- Reformas na EconomiaO Primeiro-Ministro de D. José I procurou incrementar a produção nacional em relação à concorrência estrangeira, desenvolver o comércio colonial e incentivar o desenvolvimento das manufacturas. No âmbito dessa política, em 1756 criou a Companhia para a Agricultura das Vinhas do Alto Douro, à qual concedeu isenção de impostos nas exportações e no comércio com a colónia, estabelecendo assim a primeira zona de produção vinícola demarcada no mundo, colocando-se os célebres marcos pombalinos nas delimitações da região.
Em 1773, é a vez da criação da Companhia Geral das Reais Pescas do Reino do Algarve, destinada a controlar a pesca no sul de Portugal.
Ao mesmo tempo, Sebastião José criou estímulos fiscais para a instalação de pequenas manufacturas voltadas para o mercado interno português, do qual faziam parte também as colónias. Essa política proteccionista englobava medidas que favoreciam a importação de matérias-primas e encareciam os produtos importados similares aos de fabricação portuguesa. Como resultado, surgiram no reino centenas de pequenas manufacturas produtoras dos mais diversos bens.
O ministro fundou também o Banco Real em 1751 e estabeleceu uma nova estrutura para administrar a cobrança dos impostos, centralizada pela Real Fazenda de Lisboa, sob o seu controlo directo.
- Reformas religiosasA acção reformadora de Sebastião de Melo estendeu-se ainda ao âmbito da política e do Estado. Nesse campo, o Primeiro-Ministro empenhou-se no fortalecimento do absolutismo do rei e no combate a sectores e instituições que poderiam enfraquecê-lo. Diminuiu o poder da Igreja, subordinando o Tribunal do Santo Ofício (Inquisição) ao Estado e, em 1759, expulsou os Jesuítas da metrópole e das colónias, confiscando os seus bens, sob a alegação de que a Companhia de Jesus agia como um poder autónomo dentro do Estado português.
Apesar de a Inquisição não ter sido oficialmente desmantelada, ela sofreu com o governo do Primeiro-Ministro um profundo abalo, com medidas que a enfraqueceriam:
em 5 de Outubro de 1768, o Marquês de Pombal obrigou por decreto os nobres portugueses anti-semitas (na altura chamados de "puritanos") que tivessem filhos em idade de casar, a organizar casamentos com famílias judaicas;
em 25 de Maio de 1773 fez promulgar uma lei que extinguia as diferenças entre cristãos-velhos (católicos sem suspeitas de antepassados judeus) e cristãos-novos, tornando inválidos todos os anteriores decretos e leis que discriminavam os cristãos-novos. Passou a ser proibido usar a palavra "cristão-novo", quer por escrito quer oralmente. As penas eram pesadas: para o povo - chicoteamento em praça pública e exílio em Angola; para os nobres - perda de títulos, cargos, pensões ou condecorações; para o clero - expulsão de Portugal;
em 1 de Outubro de 1774, publicou um decreto que fazia os veredictos do Santo Ofício dependerem de sanção real, o que praticamente anulava a Inquisição portuguesa. Deixariam de se organizar em Portugal os autos-de-fé.
- Reformas na EducaçãoUma das grandes glórias do Marquês de Pombal foi o imenso impulso que deu à instrução popular. A lei de 6 de Novembro de 1772 organizava a instrução primária do modo mais completo para o seu tempo. Estabelecia o princípio de concurso, animava o ensino particular, dotava as escolas com o rendimento de um novo tributo denominado subsídio literário. Favorecia a instrução secundária criando escolas, que eram o germe dos liceus actuais, e convidando as ordens religiosas a abrirem aulas nos seus conventos. Favoreceu a instrução superior ao criar o Colégio dos Nobres. Criou estabelecimentos auxiliares, de que anteriormente nem sequer fora reconhecida a necessidade, como um observatório astronómico, um museu de História Natural, um gabinete de Física, um laboratório químico, um teatro anatómico, um dispensário farmacêutico e um jardim botânico. A fundação da Imprensa Nacional de Lisboa completou a obra do Marquês de Pombal em relação ao desenvolvimento intelectual do País. Esta reforma da instrução pública, a mais importante que ocorreu, valeu ao ministro a admiração e o respeito da Europa. O encarregado de negócios de França, em Lisboa, não ocultava a sua veneração pelo homem que fizera com que houvesse num tão pequeno reino, mergulhado até então nas trevas, 837 escolas de instrução primária e secundária. O sistema de ensino do reino e das colónias - que até essa época se encontrava sob a responsabilidade da Igreja -, passou-o ao controlo do Estado. A Universidade de Évora, por exemplo, pertencente aos Jesuítas, foi extinta, e a Universidade de Coimbra sofreu uma profunda reforma, sendo totalmente modernizada.
A "reforma universitária" incluía também a proibição de alunos ou professores com ascendência judaica nos quadros do estabelecimento de ensino.

O Terramoto de 1755
Gravura em cobre de 1755
mostrando Lisboa em chamas e o tsunami varrendo o porto.

A sua ascensão a Primeiro-Ministro do rei já ocorrera quando, pelas 9:45 do dia 1 de Novembro de 1755, feriado católico de Todos-os-Santos, sucede, para grande espanto de toda uma população, algo que simbolizaria a destruição de uma cidade velha e o ressurgimento de uma cidade nova em folha: um terramoto de proporções dantescas, causador de fissuras gigantescas de cinco metros que cortaram o centro da cidade de Lisboa. Com os vários desmoronamentos os sobreviventes procuraram refúgio na zona portuária e assistiram ao abaixamento das águas, revelando o fundo do mar, cheio de destroços de navios e cargas perdidas. Dezenas de minutos depois um enorme maremoto de 20 metros faria submergir o porto e o centro da cidade. Nas áreas que não foram afectadas pelo maremoto, o fogo logo se alastrou, e os incêndios duraram pelo menos cinco dias.
Lisboa não foi a única cidade portuguesa afectada pela catástrofe. Todo o sul de Portugal, nomeadamente o Algarve, foi atingido e a destruição foi generalizada. As ondas de choque do terramoto foram sentidas por toda a Europa e norte da África. Os maremotos originados por este terramoto varreram desde a África do norte até ao norte da Europa, nomeadamente até à Finlândia, e através do Atlântico afectaram locais como Martinica e Barbados.
Dos 275 mil habitantes de Lisboa, 90 mil desapareceram. Outras 10 mil pessoas foram vitimadas em Marrocos. Cerca de 85% das construções de Lisboa foram destruídas, incluindo palácios famosos, bibliotecas, igrejas e hospitais. As várias construções que sofreram pouco danos pelo terramoto foram destruídas pelo fogo que se seguiu ao abalo sísmico.
Quase por milagre, a família real escapou ilesa à catástrofe. O rei D. José I e a corte tinham deixado a cidade depois de assistir a uma missa ao amanhecer, encontrando-se em Santa Maria de Belém na altura do terramoto. A ausência do rei na capital deveu-se à vontade das princesas de passar o feriado fora da cidade.
Tal como o rei, o Marquês de Pombal sobreviveu ao terramoto. E quem melhor do que o grande reformador Sebastião José de Carvalho e Melo para fazer renascer das cinzas uma cidade inteira? Foi o que aconteceu, e todo o génio do antigo diplomata é posto à prova neste acontecimento com consequências em e para todo o país. A sua rápida resolução levou-o a organizar equipas de bombeiros para combater os incêndios e recolher os milhares de cadáveres a fim de evitar epidemias.
O ministro e o rei contrataram arquitectos e engenheiros e, em menos de um ano depois do terramoto, já não se encontravam ruínas em Lisboa e os trabalhos de reconstrução iam adiantados. A capacidade de reconstrução e a visão de futuro que Pombal aplicou nessa reconstrução transformaram Lisboa numa cidade moderna. O rei desejava uma cidade nova e ordenada e grandes praças e avenidas largas e rectilíneas marcaram a planta da nova cidade. Na altura alguém perguntou ao Marquês de Pombal para que serviam ruas tão largas, ao que este respondeu que um dia elas serão pequenas...
Após o início da reconstrução urbana, Sebastião José vê ampliados os seus poderes pelo monarca.
E, facto curioso, note-se que os primeiros edifícios mundiais a serem construídos com protecções anti-sismo, testados recorrendo a modelos de madeira (cuja reacção à vibração era observada à medida que as tropas marchavam ao seu redor), devem-se ao Marquês de Pombal.
Foi deste modo que a figura de Sebastião José começou a ter impacto não apenas no seu país mas também em outros países europeus.
O Processo dos Távoras

D. José I, casado com Mariana Vitoria de Borbón, princesa espanhola, tinha quatro filhas. Apesar de ter uma vida familiar alegre, (o rei adorava as filhas e apreciava brincar com elas e levá-las em passeio), D. José I tinha uma amante: Teresa Leonor, mulher de Luís Bernardo, herdeiro da família de Távora.
O seu Primeiro-Ministro era um homem severo, filho de um fidalgo de província, com algum rancor para com a velha nobreza, que o desprezava. Assim, as desavenças entre Pombal e os nobres eram frequentes mas toleradas pelo rei, que confiava em Sebastião de Melo devido à sua liderança competente após o terramoto.
Em Setembro de 1758, dá-se o atentado contra a vida de D. José I, quando este regressava numa carruagem ao Palácio. Sebastião de Melo, prevenido imediatamente, intuiu que tinha ali o ensejo favorável para desferir um grande golpe na nobreza e talvez também nos Jesuítas. Tomou o controlo imediato da situação e mantendo em segredo o ataque e os ferimentos do rei, efectuou um julgamento rápido. Poucos dias depois, dois homens foram presos e torturados. Os homens confessaram a culpa e que tinham tido ordens da família Távora, que estava conspirando para colocar o duque de Aveiro, José Mascarenhas, no trono, já que o rei não tinha descendência masculina. Ambos foram enforcados no dia seguinte, mesmo antes da tentativa de regicídio ter sido tornada pública. Nas semanas que se seguiram, a marquesa Leonor de Távora, o seu marido, o conde de Alvor, todos os seus filhos, filhas e netos foram encarcerados. Os conspiradores, o duque de Aveiro e os genros dos Távoras, o marquês de Alorna e o conde de Atouguia foram presos com as suas famílias. Gabriel Malagrida, o jesuíta confessor de Leonor de Távora foi igualmente preso.
Foram todos acusados de alta traição e de regicídio.
A sentença ordenou a execução de todos eles, incluindo mulheres e crianças. Apenas as intervenções da Rainha Mariana e de Maria Francisca, a herdeira do trono, salvaram a maioria deles. A marquesa, porém, não seria poupada. Ela e outros acusados que tinham sido sentenciados à morte foram torturados e executados publicamente em 13 de Janeiro de 1759 num descampado perto de Lisboa. O rei esteve presente, juntamente com a sua corte, absolutamente desnorteada. Os Távoras eram seus semelhantes, mas o rei quis que a lição fosse aprendida. A família Alorna e as filhas do Duque de Aveiro foram condenadas a prisão perpétua em mosteiros e conventos.
Alguns dias depois a Ordem dos Jesuítas seria declarada ilegal. Todas as suas propriedades foram confiscadas e os Jesuítas expulsos do território português, na Europa e no Ultramar. Desde o princípio do seu governo que o Marquês de Pombal travava com eles uma luta implacável. Os Jesuítas eram a sua grande preocupação, por serem um obstáculo invencível a todos os seus projectos de reforma e de regeneração social. Dominavam em toda a parte, reinavam nas consciências pelo confessionário, nos espíritos pela educação, e na perspectiva de Pombal a educação do povo dirigida por eles era a mais funesta possível, sinónimo de imobilidade perpétua, de condenação à eterna futilidade e à eterna insignificância. Em todos os países se sentia esta funesta influência jesuítica, mas em Portugal era mais terrível ainda por causa das colónias, dominadas completamente pelos Jesuítas, principalmente as americanas. Por tal, em todos os actos hostis dirigidos ao governo queria o Marquês ver sempre a mão dos jesuítas.
Depois de muitos entraves, conseguiu finalmente que fossem expulsos de Portugal por decreto de 3 de Setembro de 1759, enviando logo para Itália pelo brigue S. Nicolau um carrego de jesuítas.

O Marquês de Pombal no Brasil

Existe uma grande dissonância entre a percepção popular do marquês entre os portugueses (que o vêem como herói nacional) e entre os brasileiros (que o vêem como tirano e opressor).
Na visão do governo português, a administração da colónia devia ter sempre como meta a geração de riquezas para o reino. Esse princípio não mudou sob a administração do marquês. O regime de monopólio comercial, por exemplo, não só se manteve, como foi acentuado para se obter maior eficiência na administração colonial.
Em 1755 e 1759, foram criadas, respectivamente, a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão e a Companhia Geral de Comércio de Pernambuco e Paraíba, empresas monopolistas destinadas a dinamizar as actividades económicas no norte e nordeste da colónia. Na região mineira, instituiu a derrama em 1765, com a finalidade de obrigar os mineradores a pagarem os impostos atrasados. A derrama era uma taxa per capita, em quilos de ouro, que a colónia era obrigada a enviar para a metrópole, independentemente da real produção de ouro.
As maiores alterações, porém, ocorreram na esfera político-administrativa e na educação. Em 1759, o regime de capitanias hereditárias foi definitivamente extinto, com a sua incorporação nos domínios da Coroa portuguesa. Quatro anos depois, em 1763, a sede do governo-geral da colónia foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, cujo crescimento sinalizava o deslocamento do eixo económico do nordeste para a região Centro-Sul.
Com a expulsão violenta dos Jesuítas do império português, o marquês determinou que a educação na colónia passasse a ser transmitida por leigos nas chamadas Aulas Régias. Até então, o ensino formal estivera a cargo da Igreja. O marquês regulamentou ainda o funcionamento das missões, afastando os padres da sua administração e criou, em 1757, o Directório, órgão composto por homens de confiança do governo português, cuja função era gerir os antigos aldeamentos.
Complementando esse "pacote" de medidas, o marquês procurou dar maior uniformidade cultural à colónia, proibindo a utilização do Nheengatu, a língua geral (uma mistura das línguas nativas com o português, falada pelos bandeirantes) e tornando obrigatório o uso do idioma português.
Ainda hoje se encontra uma estátua de mármore em tamanho natural do Marquês de Pombal na Santa Casa de Misericórdia da Bahia localizada no centro histórico de Salvador.

Bibliografia

9º ANO: GLOBALIZAÇÃO

Globalização
A globalização está a criar novas ameaças! A globalização oferece grandes oportunidades para o progresso humano! Estas e outras opiniões cruzam-se todos os dias nos media. Onde está a razão?
Globalização - principais características
Características da globalização
Se há algumas décadas atrás uma catástrofe ocorrida num outro canto do mundo em pouco nos afectaria, hoje em dia, o caso muda de figura. O fenómeno da globalização está a unir de tal forma o mundo que tudo tem influência um pouco por todo o lado.No Relatório do Desenvolvimento Humano de 1999, uma das conclusões a reter é que “a redução do espaço e do tempo e o desaparecimento de fronteiras estão a ligar as vidas das pessoas mais profundamente, mais intensamente e mais directamente do que alguma vez antes”.Toda a comunidade global é afectada por fenómenos sociais, económicos ou comerciais que ocorram em qualquer parte do mundo. O Relatório do Desenvolvimento Humano de 1999 dá como exemplo o colapso do baht tailandês que “não se limitou a atirar milhões para o desemprego, no Sudeste Asiático – o declínio da procura mundial que se lhe seguiu significou reduções do investimento social na América Latina e um súbito aumento do custo dos medicamentos importados, em África”.Se tempos houve em que a história mundial assistiu a fenómenos semelhantes ao da globalização, a verdade é que, actualmente, ela reveste-se de novas características:
“novos mercados – mercados de câmbios e de capitais ligados mundialmente e operando 24 horas por dia, com negociações à distância em tempo real;
novos instrumentos – ligações via Internet, telefones celulares, redes de comunicação;
novos actores – a Organização Mundial do Comércio (OMC) com autoridade sobre os governos nacionais; empresas multinacionais com mais poder económico do que muitos Estados; redes mundiais de organizações não governamentais (ONG) e outros grupos que transcendem as fronteiras nacionais;
novas regras – acordos multilaterais sobre comércio, serviços e propriedade intelectual, apoiados por fortes mecanismos de imposição e mais vinculativos para os governos nacionais, reduzindo o campo de acção da política nacional.”A comunidade mundial está em franca expansão. O aumento do comércio, as novas tecnologias, os investimentos em países estrangeiros, os meios de comunicação e o enorme crescimento da Internet indiciam em grande crescimento económico a nível mundial e um significativo progresso humano. A globalização parece indiciar um grande progresso no séc. XXI.Segundo o Relatório já citado, “mercados mundiais, tecnologia mundial, ideias mundiais e solidariedade mundial podem enriquecer a vida das pessoas, em todo o lado, aumentando grandemente as suas escolhas. A crescente interdependência da vida das pessoas apela para a partilha de valores e para um empenhamento partilhado no desenvolvimento humano de todos os povos.”Os primeiros grandes passos no sentido da globalização começaram a dar-se nas últimas duas décadas. O fim da Guerra Fria, a dissolução da URSS e a Queda do Muro de Berlim foram determinantes para que se começassem a encontrar pontos comuns nas economias e políticas mundiais. Os Direitos Humanos não mais foram esquecidos e os objectivos de desenvolvimento mundial são constantemente debatidos nas conferências das Nações Unidas.Um dos principais factores para o crescendo da globalização é a expansão dos mercados: “a globalização actual está a ser guiada pela expansão do mercado – abrindo as fronteiras nacionais ao comércio, capitais, informação – ultrapassando a governação desses mercados e as suas repercussões para as pessoas. Fizeram-se mais progressos nas normas, padrões, políticas e instituições para abrir os mercados mundiais do que para as pessoas e seus direitos.”Mas, “os mercados não são nem a primeira nem a última palavra no desenvolvimento humano. Muitas actividades e bens essenciais ao desenvolvimento são fornecidos fora dos mercados – mas estão a ser comprimidos pela pressão da concorrência mundial. Há compressão fiscal sobre os bens públicos, uma compressão do tempo sobre as actividades de apoio familiar e social e uma compressão dos incentivos sobre o ambiente.”“Quando o mercado vai demasiado longe, dominando os resultados sociais e políticos, as oportunidades e recompensas da globalização difundem-se de forma desigual e não equitativa – concentrando poder e riqueza num grupo seleccionado de pessoas, países e empresas, marginalizando os outros.Quando o mercado fica fora de controlo, as instabilidades revelam-se na aceleração e na queda das economias, como na crise financeira da Ásia Oriental e suas repercussões mundiais, que reduziu o produto mundial num valor estimado de 2 biliões de dólares em 1998-2000.”Aliás, não será preciso recuar muito no tempo para recordarmos um exemplo estrondoso do que podem ser as consequências da globalização. Os recentes atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA tiveram uma repercussão enorme em todo o mundo. Assim se mostrou como um duro golpe na economia da grande potência mundial pode ter consequências nocivas em todo o mundo.“O desafio da globalização no novo século não é travar a expansão dos mercados mundiais. O desafio está em encontrar as regras e instituições para uma governação mais forte – local, nacional, regional e mundial – para proteger as vantagens dos mercados mundiais e da concorrência mas, também, para providenciar espaço suficiente para os recursos humanos, comunitários e ambientais necessários para assegurar que a globalização funciona para as pessoas – não apenas para os lucros. Globalização com:
Ética – menos violação dos direitos humanos;
Equidade – menos disparidade dentro e entre nações;
Inclusão – menos marginalização de pessoas e países;
Segurança humana – menos instabilidade das sociedades e menos vulnerabilidade das pessoas;
Sustentabilidade – menos destruição ambiental;
Desenvolvimento – menos pobreza e privação.”Só se todos estes factores estiverem garantidos é que a globalização será um êxito em todas as frentes. A globalização dos mercados é, indubitavelmente, muito importante e uma questão incontornável mas é preciso que seja acompanhada de todos os factores que compõem a humanidade para que seja, efectivamente, uma verdadeira globalização.O fenómeno da globalização está, ao mesmo tempo, a afectar directamente a vida das pessoas devido à conjugação de vários factores que resultam da ideia de “aldeia global”:
“Redução do espaço: A vida das pessoas – os seus empregos, rendimentos e saúde – é afectada por acontecimentos no outro lado do globo e, muitas vezes, por acontecimentos que desconhecem.
Redução do tempo: Os mercados e as tecnologias mudam actualmente a uma velocidade sem precedentes, com acção à distância em tempo real e com impactos sobre a vida de pessoas muito distantes.
Desaparecimento de fronteiras: As fronteiras nacionais estão a desaparecer, não apenas para o comércio, capital e informação mas, também, para as ideias, normas, cultura e valores. As fronteiras estão, igualmente, a desaparecer na política económica – à medida que os acordos multilaterais e as pressões para manter a concorrência nos mercados mundiais constrangem as opções de política nacional e que as empresas multinacionais e os sindicatos mundiais do crime integram as suas operações a nível mundial.”
Fonte: Relatório do Desenvolvimento Humano 1999 – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Adaptado)

Globalização - contexto histórico
Contexto histórico da globalização
A globalização é um fenómeno que surgiu na década de 80, ligado a uma nova vaga de liberalização económica, o neoliberalismo, inaugurada por algumas potências económicas mundiais (nos EUA com Ronald Reagan e no Reino Unido com Margaret Thatcher) e que se impôs por todo o mundo dito “capitalista”. Consequentemente, com maior ou menor empenho, todos os países fazem parte do conceito de “aldeia global”. Durante vários séculos, existiu apenas uma forma de globalização ocidental, a globalização europeia. A situação começou a alterar-se no início do século XX, quando os EUA entraram na cena internacional, passando a liderar as exportações, até à Segunda Guerra Mundial. Na segunda metade do século XX, os EUA converteram-se numa grande potência hegemónica e a Europa passou a protagonizar duas formas alternativas de globalização: o capitalismo da Europa Ocidental e o comunismo da Europa Central e Oriental. A Guerra Fria contribuiu decisivamente para que as rivalidades se extremassem e que as diferenças dos capitalismos (europeu ocidental e norte-americano) não fossem reconhecidas pelos países comunistas ou, sendo-o, fossem desvalorizadas. O colapso do comunismo permitiu a afirmação das diferenças e das rivalidades entre os modelos capitalistas europeu e norte-americano. Ambos marcaram presença na construção das instituições e nas discussões sobre os modelos de Estado e de capitalismo que tiveram lugar na Rússia e noutros países da Europa Central e Oriental, no início dos anos 90. As diferenças entre os dois modelos de capitalismo e, portanto, de globalização são consideráveis. O modelo europeu procura um equilíbrio entre a competitividade e solidariedade social, através da manutenção de um Estado-providência relativamente forte e de uma flexibilidade mitigada da relação salarial, em cuja gestão os sindicatos continuam a ter um papel mais ou menos significativo. No modelo americano impera a competitividade e a flexibilidade, não existindo um Estado-providência patente. Contudo, as empresas multinacionais têm, nos EUA, maior capacidade para influenciar políticas públicas do que as empresas da Europa, onde os países, através da União Europeia, continuam a ter uma relativa autonomia na gestão macroeconómica.
In Enciclopédia Universal, Texto Editora

Globalização - aspectos positivos
Aspectos positivos da globalização
A globalização está, sem dúvida, a unir povos e países numa grande “aldeia global”.É certo que nem todos conseguem acompanhar o desenvolvimento mas a verdade é que o mundo actual está mais dinâmico.Segundo dados do Relatório do Desenvolvimento Humano de 1999:
“As exportações mundiais, actualmente de 7 biliões de dólares, foram, em média, de 21% do PIB nos anos 90, comparado com 17% de um PIB bastante menor nos anos 70.
O investimento directo estrangeiro atingiu o máximo de 400 mil milhões de dólares em 1997, sete vezes o nível dos anos 70, em termos reais. Os investimentos de carteira e outros fluxos de capital de curto prazo cresceram substancialmente e totalizam agora, em valor bruto, mais de 2 biliões de dólares, quase três vezes o nível dos anos 80.
As transacções diárias nos mercados de câmbios aumentaram de cerca de 10 a 20 mil milhões de dólares em 1970 para 1,5 biliões em 1998.
Entre 1983 e 1993, as compras e vendas internacionais de Títulos do Tesouro norte-americano aumentaram de 30 mil milhões de dólares por ano para 500 mil milhões.
Os empréstimos bancários internacionais cresceram de 265 mil milhões de dólares em 1975 para 4,2 biliões em 1994.
As pessoas viajam mais – com o turismo mais do que duplicando entre 1980 e 1996, de 260 milhões de viajantes para 590 milhões.
Apesar das restrições apertadas, as migrações internacionais continuaram a crescer. Assim como as remessas dos trabalhadores, que atingiram 58 mil milhões de dólares em 1996.
O tempo dispendido em chamadas telefónicas internacionais disparou de 33 mil milhões de minutos em 1990 para 70 mil milhões em 1996.
As viagens, a Internet e os meios de comunicação estimularam um crescimento exponencial na troca de ideias e informação e, actualmente, as pessoas estão mais do que nunca empenhadas em associações que ultrapassam as fronteiras nacionais – desde redes informais até organizações formais.”É deste modo que a globalização vai tomando forma e sendo cada vez mais visível e abrangente. A tendência é agora para uma unificação mundial a todos os níveis.
Fonte: Relatório do Desenvolvimento Humano 1999 – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Adaptado)
Globalização - aspectos negativos
Aspectos negativos da globalização
Se é verdade que a globalização configura uma nova era de interacção entre países, economias e povos, também é verdade que está a fragmentar os processos de produção, mercados de trabalho, entidades políticas e sociedades. Estes últimos são os aspectos negativos, desintegradores e marginalizadores da globalização.No mercado de trabalho, por exemplo, embora haja actualmente muito mais oportunidades do que há 20, 50 ou 100 anos atrás, o mercado mundial só abre fronteiras aos trabalhadores mais qualificados, sendo esses os principais beneficiados com esta abertura do mercado de trabalho.Se o mundo está em constante crescimento social e económico, uma parcela desse mesmo mundo continua a viver em condições que nada têm a ver com as vividas na “aldeia global”:
“aproximadamente 1,3 mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável;
uma em cada sete crianças em idade do primário está fora da escola;
840 milhões de pessoas estão subalimentadas;
1,3 mil milhões de pessoas, aproximadamente, vivem com rendimentos inferiores a 1 dólar (PPC 1987) por dia.”Mesmo nos países industrializados e desenvolvidos a pobreza é uma realidade, encoberta pelas estatísticas de sucesso que esses países apresentam. É claro que estas situações de disparidade económica não são uma consequência directa do fenómeno da globalização mas poderão vir a tornar-se um entrave à mesma.
Fonte: Relatório do Desenvolvimento Humano 1999 – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Adaptado)

Globalização - desigualdades
Desigualdades no contexto da globalização
Embora não seja uma consequência directa do fenómeno da globalização, a verdade é que as disparidades económicas e sociais entre alguns países são visivelmente significativas.Mais uma vez recorremos ao Relatório do Desenvolvimento Humano de 1999 para ilustrar e explicar estas desigualdades mundiais: “Desde os anos 80, muitos países experimentaram as oportunidades da globalização económica e tecnológica. Para além dos países industrializados, os tigres da Ásia Oriental de industrialização recente são agora acompanhados pelo Chile, República Dominicana, Índia, Maurícia, Polónia, Turquia e muitos outros, ligando-se aos mercados mundiais, atraindo investimento estrangeiro e tirando vantagem dos avanços tecnológicos.”“No outro extremo estão os muitos países que pouco têm beneficiado da expansão dos mercados e do avanço da tecnologia – Madagáscar, Níger, Federação Russa, Tajiquistão e Venezuela entre outros.”A globalização económica contribui, de facto, para esta bipolaridade. Estes países pouco beneficiados com a expansão dos mercados estão cada vez mais marginais no tecido económico mundial, visto que as suas exportações pouco cresceram e o investimento estrangeiro parece não querer entrar lá. Assim, dificilmente estes países poderão competir com as grandes economias.“Se as oportunidades mundiais não forem melhor repartidas, o crescimento fracassado das últimas décadas irá continuar. Mais de 80 países ainda têm rendimentos per capita mais baixos do que há uma década ou mais atrás. Enquanto 40 países mantiveram um crescimento médio do rendimento per capita de mais de 3% ao ano desde 1990, 55 países, principalmente na África Subsariana e na Europa do Leste e Comunidade de Estados Independentes (CEI), tiveram rendimentos per capita decrescentes.”Também o sector do emprego se encontra bipolarizado entre as grandes oportunidades para os mais qualificados e as escassas oportunidades para os menos qualificados. Assim, se um trabalhador qualificado pode facilmente pensar em ultrapassar as barreiras nacionais e lançar-se no mercado mundial de trabalho, para os trabalhadores com poucas qualificações este cenário é altamente improvável. O mercado mundial de trabalho abre, assim, as suas portas aos trabalhadores mais qualificados, seja qual for o seu país de origem. Para estes afortunados, é a grande oportunidade de uma melhor carreira com melhores remunerações.Mas as desigualdades ultrapassam em muito as pessoas. Elas sentem-se em termos de países. “O hiato de rendimento entre o quinto da população mundial que vive nos países mais ricos e o quinto que vive nos mais pobres era de 74 para 1 em 1997, acima de 60 para 1 em 1990 e de 30 para 1 em 1960.”“Nos últimos anos da década de 90, o quinto da população mundial que vive nos países de rendimento mais elevado tinha:
86% do PIB mundial – o quinto da base apenas 1%.
82% dos mercados mundiais de exportação – o quinto da base apenas 1%.
68% do investimento directo estrangeiro – o quinto da base apenas 1%.
74% das linhas telefónicas mundiais, meios básicos de comunicação hoje – o quinto da base apenas 1,5%.”O Relatório do Desenvolvimento Humano de 1999 apresenta também os seguintes dados relativos à concentração de rendimento, recursos e riqueza entre pessoas, empresas e países:
“Os países da OCDE, com 19% da população mundial, detêm 71% do comércio mundial de bens e serviços, 58% do investimento directo estrangeiro e 91% do total de utilizadores da Internet.
Nos quatro anos anteriores a 1998, as 200 pessoas mais ricas do mundo mais do que duplicaram a sua riqueza líquida, para cima de 1 bilião de dólares. Os activos dos três primeiros multimilionários são superiores ao PNB conjunto de todos os países menos desenvolvidos e dos seus 600 milhões de pessoas.
A vaga recente de fusões e aquisições está a concentrar o poder do capital nas mega-empresas – com o risco de desgastar a concorrência. Em 1998, as 10 maiores empresas de pesticidas controlavam 85% de um mercado mundial de 31 mil milhões de dólares – e as 10 maiores empresas de comunicações, 86% de um mercado de 262 mil milhões.
Em 1993, apenas dez países eram responsáveis por 84% das despesas mundiais de investigação e desenvolvimento e controlavam 95% das patentes americanas das duas últimas décadas. Além disso, mais de 80% das patentes concedidas nos países em desenvolvimento pertencem a residentes nos países industrializados.”
Fonte: Relatório do Desenvolvimento Humano 1999 – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Adaptado).

Globalização - um novo conceito
O novo conceito de globalização
Apesar de no séc. XIX já estarem reunidas algumas das condições necessárias para promover a globalização, a verdade é que, principalmente nas últimas duas décadas, surgiram novos elementos para a globalização.Novos mercados, novos actores, novas regras e normas, novos instrumentos de comunicação aparecem agora como os grandes factores conducentes à globalização.Nos novos mercados englobam-se:
“mercados mundiais em crescimento nos serviços – banca, seguros, transportes.
novos mercados financeiros – desregulamentados, interligados mundialmente, trabalhando 24 horas por dia, com acção à distância em tempo real, com novos instrumentos tais como os derivados. Os corretores financeiros estão no topo das ligações. Comunicações instantâneas, fluxos livres de capital e constantes actualizações vindas de todo o mundo habilitam os mercados financeiros, de Londres a Jacarta, de Tóquio a Nova Iorque, a actuar como uma unidade, em tempo real.
proliferação de fusões e aquisições – as fusões e aquisições além fronteiras foram responsáveis por 59% do investimento directo estrangeiro total em 1997.
mercados mundiais de consumo com marcas mundiais.”Por novos actores entendem-se: “- sociedades multinacionais, com produção e comercialização integradas, dominando a produção mundial – as empresas multinacionais percorrem os mercados mundiais e integram a produção. - a Organização Mundial do Comércio – primeira organização multilateral com autoridade para impor o cumprimento de regras aos governos nacionais; - um sistema internacional de tribunais criminais em criação; - uma rede internacional de ONG em grande expansão – as ONG, em linha, podem fazer campanhas em todo o mundo, com as suas mensagens atravessando fronteiras em segundos. - blocos regionais em proliferação e ganhando importância – União Europeia, Associação dos Países do Sudeste Asiático, Mercosul, Acordo Norte-Americano de Comércio Livre, Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, entre muitos outros; - mais agrupamentos de coordenação de políticas – G-7, G-10, G-22, G-77, OCDE.” Se os mercados e os actores sócio-económicos parecem convergir para uma verdadeira globalização, há que impor novas regras e normas para que tudo possa funcionar em conformidade:
“Políticas económicas de mercado em difusão por todo o mundo, com maior privatização e liberalização do que em décadas anteriores;
Adopção ampla da democracia como escolha de regime político;
Convenções sobre direitos humanos e instrumentos em preparação, quer sobre a cobertura, quer sobre o número de signatários – e crescente consciência das pessoas em todo o mundo;
Objectivos consensuais e agenda de acção para o desenvolvimento;
Convenções e acordos sobre o ambiente global – biodiversidade, camada de ozono, recolha de resíduos perigosos, desertificação, alterações climáticas;
Acordos multilaterais sobre o comércio, assumindo novas agendas tais como as condições ambientais e sociais;
Novos acordos multilaterais – sobre serviços, propriedade intelectual, comunicações – comprometendo mais os governos nacionais do que quaisquer acordos anteriores;
Acordo Multilateral sobre Investimento em debate.” Finalmente, os novos instrumentos de comunicação, mais rápidos e mais baratos, têm, indubitavelmente, um papel preponderante neste novo conceito de globalização: “- Internet e comunicação electrónica ligando muitas pessoas em simultâneo; - Telefones celulares;- Máquinas de fax;- Transportes aéreos, ferroviários e rodoviários, mais rápidos e mais baratos; - Desenho por computador.”São todos estes factores reunidos que lançam para o séc. XXI o novo conceito de globalização.
Fonte: Relatório do Desenvolvimento Humano 1999 – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Adaptado)

8º ANO: BIOGRAFIA-DAMIÃO DE GÓIS: HISTÓRIA DE PORTUGAL

A vida de Damião de Góis
Damião de Góis
Damião de Góis distingue-se na História portuguesa pelos seus feitos de humanista e de historiógrafo. Numa época em que as novas ideias fervilhavam por toda a Europa mas eram censuradas pela Inquisição, Damião de Góis fez, até ao fim, valer a sua posição.Damião de Góis nasceu em Fevereiro de 1502 numa quinta em Alenquer, perto de Lisboa. O seu pai era Rui Dias de Góis, almoxarife da rainha D. Leonor, e a sua mãe era Isabel Gomes de Limi, neta de Nicolau de Limi, um nobre flamengo que se havia estabelecido em Portugal.Em 1511, com apenas 9 anos de idade, entra para o Paço da Ribeira, como pajem do rei D. Manuel I. Pouco tempo depois, fica com as funções de moço de câmara.Em 1513, fica órfão de pai. Nessa altura, e como era hábito na época, os moços de câmara e fidalgos tinham direito a uma educação esmerada e polivalente na corte portuguesa. Foi o que aconteceu ao jovem Damião.Nos Paços Reais, Damião não só recebeu uma educação digna das maiores hierarquias da nobreza como fez amizade com o futuro rei D. João III, que tinha a sua idade. As brincadeiras que partilharam na infância já faziam antever a amizade que se iria seguir na idade adulta.Com um acesso tão privilegiado à corte, Damião testemunha alguns acontecimentos marcantes da História de Portugal: o período áureo do reinado de D. Manuel e o início dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. Além disso, convive com fidalgos de renome, homens de armas e marinheiros e assiste ao nascimento do futuro Cardeal D. Henrique, que viria a ser Inquisidor-Geral e rei. Conhece todos os poetas que frequentam a corte e nomes históricos como Pedro Nunes, Garcia de Orta e Gil Vicente.D. Manuel I morre em 1511 e, dois anos depois, Damião de Góis parte para a Flandres, a mando de D. João III. Embarca na armada de Pêro Afonso de Aguiar para ir desempenhar as funções de escrivão na Feitoria portuguesa de Antuérpia. É o início de uma vida inteira de viagens pela Europa...Estabelecido num dos maiores centros cosmopolitas da Europa, onde a riqueza material e cultural é fácil de alcançar, Damião de Góis depressa começa a tirar o melhor partido desta situação.Ao mesmo tempo que desempenha as suas funções na Feitoria, Damião de Góis completa os seus estudos humanísticos e viaja por todas as províncias dos Países Baixos. Numa destas viagens, visita Freiburg, onde conhece Erasmo.Em 1529, desloca-se à Europa Oriental, como enviado régio de D. João III, com a missão de tratar do casamento do Infante D. Luís com Edviges, filha de Sigesmundo I. Visita Dantzig, Vilna, Thorn, Cracóvia e Poznan.Em 1531, regressa ao oriente europeu, novamente como enviado régio de D. João III. Visita Schleswig, Lübeck, Luneburg, Ülzen, Magdeburg, Wittemberg, Frankfurt, Poznan e Dantzig. Nestas viagens, trava conhecimento com importantes vultos do humanismo europeu: além de Erasmo, conhece Lutero, Melanchton, Dürer, Johannes Magnus, Bonifácio Amerbach, Nicolau Clenardo, entre outros.Entre tantos humanistas, quem mais o influenciou foi Erasmo de Roterdão, na casa de quem chegou a estar hospedado. Damião de Góis sentia um grande fascínio pela personalidade de Erasmo e estava muito interessado no movimento da Reforma Protestante.Em 1533, Damião de Góis regressa a Portugal, onde D. João III lhe oferece o cargo de tesoureiro da Casa da Índia, um dos melhores cargos públicos da época. Damião recusa porque quer voltar para o estrangeiro.É nessa altura que Damião de Góis passa alguns meses hospedado na casa de Erasmo, em Freiburg, onde conhece Glareanus, um historiador, poeta, filósofo, matemático e músico. Pensa-se que terá sido nesta época que Damião decidiu desenvolver as suas aptidões musicais.Depois da estada em casa de Erasmo, Damião parte para Pádua, na Itália, para prosseguir os seus estudos universitários. Em Pádua, conhece o geógrafo Ramúsio, o basco Inácio de Loyola e o padre Simão Rodrigues de Azevedo. Em 1538, termina os seus estudos e regressa aos Países Baixos.Em Haia, casa com Joanna van Hargen, filha de um conselheiro flamengo do Imperador Carlos V. Dedica-se à escrita de várias obras em latim (a língua, por excelência, do período humanista) com o objectivo de dar a conhecer as glórias portuguesas no Oriente.Em 1545, regressa definitivamente a Portugal. A pedido de D. João III, vinha ocupar o cargo de mestre e guarda roupa do príncipe D. João. Devido à oposição de alguns sectores da sociedade portuguesa da época, nomeadamente dos jesuítas, Damião de Góis nunca chegou a desempenhar esse cargo.Nessa altura, a Inquisição já andava a prestar mais atenção ao humanista português. O padre Simão Rodrigues, com quem Damião privara em Pádua, formulara uma denúncia ao Tribunal do Santo Ofício contra Damião de Góis, com base na relação próxima que o português tivera com Lutero. Para o padre português, Damião de Góis era, tal como os humanistas com quem estabelecera contacto, um herege.Talvez devido aos conhecimentos que tinha na corte e à amizade de infância que o ligava ao rei e ao Cardeal Inquisidor D. Henrique, a denúncia não chegou a ir para a frente.Em 1548, foi nomeado, por alvará régio, Guarda-mor da Torre do Tombo. Nos Paços de Alcáçova, onde vivia, Damião de Góis levava uma vida de fausto e opulência, propícia a convívios de música e canto, o que provocava sentimentos de inveja junto da sociedade portuguesa.Em 1550, é novamente denunciado à Inquisição, mais uma vez pelo padre jesuíta Simão Rodrigues. A denúncia voltou a não ter seguimento.Enquanto guarda-mor, Damião de Góis pôde aperfeiçoar o seu ofício de historiógrafo, devido ao contacto próximo que tinha com os documentos históricos. Assim, em 1558, um ano depois da morte de D. João III, o Cardeal D. Henrique, então regente do reino, incumbe-lhe a tarefa de escrever a Crónica d´El Rei D. Manuel.Durante alguns anos, Damião de Góis trabalha com afinco e dedicação na redacção do texto. O seu lado humanista, fiel aos factos históricos e avesso a bajulações hipócritas, fez com que escrevesse a Crónica com a maior isenção que lhe era possível.Assim, em 1566, saem as 1.ª e 2.ª partes da Crónica de D. Manuel. No ano seguinte, é a vez de verem a luz do dia as 3.ª e 4.ª partes e a Crónica do Príncipe D. João.A verdade nua e crua das crónicas não agradou aos grandes senhores do reino. Choveram protestos e acusações contra o humanista e o seu processo foi reaberto pela Inquisição.A 31 de Março de 1571, o Conselho Geral do Santo Ofício ordenou a prisão de Damião de Góis, que entrou para os seus cárceres secretos em 4 de Abril do mesmo ano. No dia 2 de Maio de 1572, o humanista foi formalmente acusado de “herege, luterano, pertinaz e negativo”. Foi preso no
Mosteiro da Batalha pouco depois de ter sido proferida a sua sentença.Depois de passar algum tempo na prisão, foi libertado, não se sabendo por que razão. Pouco tempo depois, morreu em circunstâncias misteriosas. Segundo a versão oficial dos acontecimentos, no dia 30 de Janeiro de 1574, Damião de Góis viajava em direcção ao Mosteiro de Alcobaça. Pernoitou numa venda, onde terá caído sobre o fogo de uma lareira que acendera para se proteger do frio. Terá morrido parcialmente calcinado.No entanto, as suspeitas de que tenha sido assassinado são muito fortes. Aquando da transladação dos seus restos mortais da Igreja de Santa Maria da Várzea para a Igreja de S. Pedro, ambas em Alenquer, 350 anos depois da sua morte, confirmou-se a existência de uma fractura no crânio, o que leva a crer que tenha, realmente, sido assassinado.


Damião de Góis e a Inquisição
O papel da Inquisição na vida de Damião de Góis

Numa época em que as ideias humanistas fervilhavam e que o movimento da Reforma Protestante estava no seu auge, a relação do Tribunal do Santo Ofício com os partidários do Humanismo e as suas novas ideias não era das melhores. Embora poupado durante algum tempo, pensa-se que por interferência régia, Damião de Góis acabou por cair nas mãos da Inquisição.Devido às várias viagens que fez pela Europa fora, Damião de Góis tornou-se um fervoroso adepto das ideias humanistas e manteve contactos próximos com grandes nomes do Humanismo e da Reforma Protestante, como Erasmo de Roterdão e Martinho Lutero. Foi, principalmente, o contacto com este último que levou às denúncias feitas pelo padre jesuíta Simão Rodrigues de Azevedo ao Tribunal do Santo Ofício.Aquando da sua estada em Pádua, para prosseguir os seus estudos universitários, Damião de Góis privou com Simão Rodrigues de Azevedo. O padre jesuíta conhecia as relações de amizade de Damião e criticava duramente os contactos que ele mantinha, principalmente, com Lutero.Para Simão Rodrigues, Lutero era a incarnação do Diabo. Pioneiro no movimento da Reforma Protestante, Martinho Lutero era considerado um herege pela Igreja Católica. Damião de Góis, ao manter contactos com tal inimigo do Catolicismo, só poderia ser também, ele próprio, um herege!Além disso, Damião mantinha também relações de amizade com Erasmo de Roterdão que, embora não renegasse o Catolicismo, era também um motivo de desconfiança para a Igreja Católica.Quando regressou a Portugal, Simão Rodrigues não hesitou em denunciar Damião de Góis à Inquisição. Em Setembro de 1545, Simão Rodrigues dirige-se à Inquisição de Évora para denunciar o seu antigo colega. Acusa-o de heresia e dá como exemplos o facto de Damião de Góis, aquando da sua estada em Pádua, ter louvado Lutero, defendido as suas ideias heréticas e ter demonstrado grande consideração pelo protestante.Apesar de Simão Rodrigues ocupar uma alta posição na sociedade da época, os inquisidores não deram seguimento ao processo de Damião de Góis. Pensa-se que o facto de Damião ser amigo íntimo de D. João III e do Cardeal D. Henrique tenha sido a principal razão para que o Santo Ofício ignorasse as denúncias. Além disso, apesar de Simão Rodrigues ser uma testemunha de confiança, não existiam mais testemunhas para os factos delatados.A acrescentar a estas razões, está também o estatuto de Damião de Góis enquanto figura de prestígio por toda a Europa. Levar adiante uma queixa desta natureza provocaria, provavelmente, reacções muito adversas vindas de toda a Europa, o que não conviria nada ao reino.Porém, Simão Rodrigues não desiste. Em 1550, volta a denunciar Damião de Góis, desta vez em Lisboa. Reafirma as suas acusações e acrescenta que viu Damião de Góis a comer queijo fresco e carne em dias proibidos pela Igreja Católica.Mais uma vez, as denúncias não tiveram seguimento.Vinte e seis anos passariam até que Damião de Góis fosse, finalmente, preso. Na origem da sua prisão está a Crónica de D. Manuel, publicada em 1566 e 1567, onde o historiógrafo, como humanista que é, faz questão de relatar apenas factos e de não se deixar levar por bajulações hipócritas.Damião de Góis perde, assim, o estado de graça em que vivera toda a sua vida. A Casa de Bragança não lhe perdoa as críticas que faz, os clérigos não gostam que defenda os cristãos etíopes e o Cardeal D. Henrique não aprecia as referências que lhe são feitas.A aparente imunidade de que gozava face ao Santo Ofício chegava, assim, ao fim. As anteriores denúncias de Simão Rodrigues e as novas acusações de Luís de Castro, genro de Damião de Góis, são as responsáveis pela prisão do humanista português.Damião de Góis defende-se das acusações de heresia que lhe são feitas, afirmando que nunca pôs em causa a fé católica, apresenta testemunhas abonatórias, recorda os serviços que prestou ao reino, mas nada parece demover os inquisidores, com o Cardeal D. Henrique à frente das hostilidades.O humanista e historiógrafo é condenado a cárcere penitencial perpétuo, escapando, assim, à sentença de morte na fogueira em auto-de-fé. No entanto, o destino (ou alguém) acaba por levá-lo à morte.A 30 de Janeiro de 1574, Damião de Góis morre, aparentemente de forma acidental, à beira da lareira que acendera para se proteger do frio. Até hoje desconhecem-se as verdadeiras causas da sua morte e permanecem as suspeitas de que tenha sido assassinado.


Damião de Góis, o humanista
Damião de Góis, humanista português

O séc. XVI foi, por excelência, o século das novas ideias a todos os níveis. O Renascimento recuperou as formas e estilos clássicos e instituiu o latim como língua de eleição. Um debate filosófico, teológico, científico e literário, capaz de questionar tudo e todos, emergia nos círculos intelectuais e culturais de toda a Europa.Em Portugal, desde logo surgiu uma grande apetência por tudo o que se passava no resto da Europa. Alguns portugueses, fascinados com as novas correntes de pensamento do Humanismo, partiram para novas paragens em busca de novos e mais abrangentes conhecimentos.Foi o caso de Damião de Góis que, em 1523, partiu para a Flandres por ordem régia. Durante mais de vinte anos correu mundo e relacionou-se com os mais eminentes nomes do Humanismo europeu. Nas suas viagens, conheceu Erasmo de Roterdão, Martinho Lutero, Melanchton, entre outros nomes célebres.Damião de Góis chegou mesmo a hospedar-se em casa de Erasmo, onde tomou contacto com as suas filosofias e ideias simpatizantes luteranas. Seriam principalmente estes conhecimentos que viriam a estar na origem das denúncias à Inquisição do padre jesuíta Simão Rodrigues, seu colega em Pádua, onde estudou na universidade.Apesar de, em muitos aspectos, Portugal estar muito virado “para fora” (não podemos esquecer que se viviam os anos áureos da Expansão Portuguesa), o Catolicismo estava muito implantado no reino, com todas as consequências que esse facto teria na possível abertura das mentes de todos os que ansiavam por mais saber.A Inquisição instalara-se em Portugal em 1536 e, com ela, a intolerância a nível religioso e cultural. Apesar de muitas das ideias humanistas não atacarem a religião, o simples facto de serem inovadoras já preocupava o Tribunal do Santo Ofício, que pretendia a todo o custo manter a ordem tradicional.Ainda assim, Damião de Góis conseguiu escapar, durante alguns anos, às garras acusatórias da Inquisição. Por ser muito bem relacionado dentro do reino e por ter alcançado um certo estatuto no estrangeiro, o Tribunal do Santo Ofício demorou algum tempo até o acusar de heresia.Na época, as ideias humanistas confundiam-se com heresia e desrespeito pela Igreja Católica porque estavam muito associadas a nomes como o de Martinho Lutero e o seu movimento de Reforma Protestante. À abertura de espírito e mentalidade europeias opunha-se a intolerância da Inquisição. Damião de Góis foi, apenas, mais uma das vítimas da intolerância inquisitorial...

8º ANO: REALISMO: HISTÓRIA DE PORTUGAL

A Questão Coimbrã
 Lisboa, os agora licenciados reuniam-se no Casino Lisbonense
A grande polémica literária do séc. XIX foi, sem dúvida, a chamada “Questão Coimbrã”. No despoletar da polémica, surgem dois nomes ideológica e literariamente opostos: Antero de Quental e António Feliciano de Castilho. Tudo começou em 1865, quando o grande símbolo do Ultra-Romantismo português, António Feliciano de Castilho faz uma referência pouco elogiosa à nova literatura portuguesa (representada, entre outros, por Antero de Quental), no posfácio a um livro de Pinheiro Chagas. Antero de Quental responde à provocação numa famosa carta aberta – “Bom Senso e Bom Gosto” – onde utiliza um sarcasmo violento, que acaba por desencadear a escalada de folhetins e artigos que se iriam trocar entre as duas facções. Na altura, saíram para a rua mais de meia centena de peças literárias a debater a questão. A batalha literária chegou mesmo a “vias de facto”, com Antero de Quental e Ramalho Ortigão (defensor de Castilho) a chegar mesmo a bater-se em duelo, por uma referência ofensiva feita pelo primeiro à cegueira de Castilho. A polémica envolveu outras figuras marcantes, como Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga, Pinheiro Chagas, Luciano Cordeiro, Brito Aranha e Teixeira de Vasconcelos, para além dos já referidos, e marcou o grande movimento de regeneração da cultura e da literatura portuguesas, abrindo portas, nomeadamente, às Conferências do Casino e ao realismo literário.
Fonte: Enciclopédia Universal, Texto Editora (Adaptado)

As Conferências do Casino
Também conhecidas por “conferências democráticas”, as Conferências do Casino reuniram os cultores do reformismo saído da “Questão Coimbrã”. Mais uma vez, surge, como figura de destaque, Antero de Quental que, com o seu discurso intitulado “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos”, volta a criticar a mentalidade acrítica e estagnada que se fazia sentir em Portugal, no séc. XIX. As Conferências do Casino foram realizadas em 1871, em Lisboa, pelo Grupo Cultural do Cenáculo, constituído pela geração cultural de vanguarda liderada por Antero de Quental. Este grupo, continuador do espírito reformista da Questão Coimbrã, era influenciado pelas modernas ideias europeias (historicismo, papel das ciências políticas, evolucionismo, socialismo, arte realista, positivismo em geral), pretendendo tirar Portugal da estagnação e atraso em que, segundo os conferencistas, se encontrava. Realizaram-se cinco conferências, duas de Antero, uma de Augusto Soromenho, uma de Eça de Queirós e uma de Adolfo Coelho, após o que o governo proibiu a continuação do ciclo de conferências. Para além dos nomes referidos, faziam parte do grupo Teófilo Braga, Oliveira Martins e Manuel Arriaga, entre outros.

Fonte: Enciclopédia Universal, Texto Editora (Adaptado)

A Geração de 70
Antero de Quental não estava só no que respeita aos ideais que defendia. Fazia parte de um grupo de escritores e intelectuais que, nas últimas décadas do século XIX, se afirmou pelo seu desejo de intervenção e renovação da vida política, social e cultural portuguesa. Este grupo ficou conhecido pela designação de “Geração de 70” e juntava, além de Antero de Quental, nomes como o de Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Joaquim Pedro de Oliveira Martins, Teófilo Braga e Guerra Junqueiro. Tendo vivido o período da regeneração, esta elite insurgiu-se contra os efeitos do romantismo na sociedade portuguesa e contra a ausência de um esforço de renovação ideológica e sociocultural que acompanhasse os progressos materiais de que o país ia beneficiando. Pretendendo aproximar Portugal da Europa dita civilizada, esta elite sofreu influências dos ideais políticos da revolução francesa e do liberalismo inglês, bem como de filósofos socialistas como Proudhon. Assim, a um Portugal visto como provinciano opunha-se uma Europa moderna e cosmopolita. Com a Questão Coimbrã, em 1865, teve início a intervenção pública do grupo, sendo Antero de Quental, sobretudo nesta primeira fase, o seu grande mentor. As Conferências do Casino foram o seguimento desta primeira polémica. O texto de Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, constitui um marco importante no questionar do sentido e possibilidades de Portugal no mundo, um dos temas de discussão fundamentais da Geração de 70. Na área da literatura, a renovação manifestou-se com a introdução do realismo, de que Eça de Queirós foi o grande cultor. O ideal revolucionário deste grupo veio a esbater-se perante as impossibilidades práticas de intervenção no país e a consciência de que também a Europa se encontrava em crise. Este sentimento decadentista, próprio da cultura finissecular, conduziu muitos destes intelectuais ao cepticismo, a um diletantismo que levou os seus membros a formar o auto-denominado grupo dos Vencidos da Vida, conscientes do fracasso e da distância a que permaneciam dos seus ideais originais.

Fonte: Enciclopédia Universal, Texto Editora (Adaptado)

8º ANO: BIOGRAFIA-ANTERO DE QUENTAL: HISTÓRIA DE PORTUGAL:REALISMO

Antero de Quental

  1. Escritor
  2. Antero Tarquínio de Quental
Grande poeta e pensador do séc. XIX, Antero de Quental distinguiu-se na história da Literatura Portuguesa pela sua obra ímpar e pelas suas ideias revolucionárias. Conheça este grande vulto da nossa literatura.
Antero Tarquínio de Quental nasceu em Ponta Delgada no dia 18 de Abril de 1842. Nascido no seio de uma das mais antigas famílias açorianas, Antero teve uma educação católica e tradicionalista, o que não o impediu de desenvolver as suas próprias ideias e capacidades reflexivas. Depois de iniciar os seus estudos na sua terra natal, foi para Lisboa para prosseguir a sua carreira de estudante. Em 1856, partiu para Coimbra para se matricular no curso de Direito da Universidade de Coimbra, onde alcançaria o grau de bacharel em 1864. Durante o período em que esteve a estudar em Coimbra, envolveu-se na agitação académica, particularmente através da organização secreta “Sociedade do Raio”, de que era presidente. Datam também deste período as suas manifestações de entusiasmo face aos movimentos sociais europeus, bem como a leitura dos grandes teorizadores do socialismo e dos filósofos da época, nomeadamente Proudhon e Hegel, que muito influenciaram o seu pensamento. Foi também nesta época que leu as obras de grandes vultos da literatura, como Balzac e Victor Hugo. Foi também no clima de agitação universitária que escreveu alguns dos seus poemas - muitas das composições que integram as Primaveras Românticas, publicadas apenas em 1872 - e as Odes Modernas, publicadas em 1865. Igualmente em 1865, e reagindo a Castilho, desencadeou a Questão Coimbrã, tão importante na evolução da cultura portuguesa, defendendo já a missão social da poesia por oposição ao lirismo ultra-romântico. Antero ascendeu, assim, a mentor da Geração de 70, pelo menos numa primeira fase. Entretanto, e após uma breve passagem pela terra natal, empregou-se como tipógrafo em Lisboa (1866), e depois em Paris, numa tentativa de contactar o mundo operário real. De regresso a Lisboa, colaborou com José Fontana na elaboração de associações operárias e, ao mesmo tempo, dedicou-se à intervenção revolucionária, escrevendo folhetos propagandísticos e artigos para a imprensa. Fundou, em 1872, a secção portuguesa da Associação Internacional dos Operários. A este período de combate, que perdurou até cerca de 1875, esteve também ligada a organização das “Conferências do Casino” (1871), ciclo da responsabilidade do grupo do Cenáculo (que incluía Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e Batalha Reis, entre outros), que Antero elevara a centro de reflexão política, social e cultural. Nas conferências, leu um dos seus textos de análise histórica mais célebres – “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares” - que corresponde aos desejos de transformação do país que animavam a sua geração. Em 1873, a morte do pai fê-lo regressar aos Açores, dotando-o de uma herança que lhe garantiu uma vida sem problemas económicos. Entretanto, atacado por uma doença estranha (identificada por alguns como psicose maníaco-depressiva), foi obrigado a moderar a sua actividade. Dirigiu ainda, com Batalha Reis, a Revista Ocidental (1875). Iniciou-se então um período de profundo pessimismo, que o levou a um sentimento da morte e da aniquilação pessoal (e universal), numa espécie de nirvana budista, como única forma de libertação face aos desespero de uma vida que via apenas como ilusão e vazio, e que os seus Sonetos Completos (reunidos em 1886) ilustram. Este período terminou por volta de 1860. No ano seguinte, seguiu para Vila do Conde, assumindo a educação das filhas, entretanto órfãs, de Germano Meireles, um seu amigo, e vivendo em relativa calma até ao fim dessa década. Aceitou ainda, em 1890, a presidência da Junta Patriótica do Norte, um dos movimentos de reacção ao ultimato inglês. Aos seus problemas pessoais e à persistência da doença, somava-se a desilusão face ao estado do país. Em 1891, regressou a Ponta Delgada e, no dia 11 de Setembro desse mesmo ano, suicidou-se com dois tiros de pistola. Fonte: Enciclopédia Universal, Texto Editora (Adaptado)
A obra
Antero de Quental ainda era estudante em Coimbra quando as suas capacidades literárias começaram a dar que falar. Desde 1860 que o nome do jovem poeta era conhecido na esfera literária devido à publicação em opúsculo anónimo da poesia “À história”, cujas estrofes abrem a primeira edição das Odes Modernas.Também em 1860, surgiram várias poesias e artigos de prosa em alguns jornais de Coimbra. Em 1861, a Imprensa Literária de Coimbra publica o folheto “Sonetos de Anthero”. Em 1865, é publicado o volume das Odes Modernas, a obra responsável pelo lugar de vulto que Antero de Quental adquiriu na Literatura Portuguesa. Dez anos depois, é publicada no Porto a segunda edição desta obra, contendo várias composições inéditas.Entretanto, em 1871 era publicado, no Porto, o volume das Primaveras Românticas.Mas Antero destacou-se também na prosa, estilo a que começou a dedicar-se em 1865 com Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX Contra a Chamada Opinião Liberal.É neste ano de 1965 que sai o opúsculo Bom Senso e Bom Gosto, dirigido ao ultra-romântico António Feliciano de Castilho e que desencadeou a famosa “Questão Coimbrã”. A obra de Antero de Quental, que reflecte quer uma evolução quer a coexistência simultânea de várias facetas na sua personalidade e de um intenso drama interior, é fundamentalmente a de um pensador, de um doutrinário e conceptualizador. Mesmo o sentimento erótico e amoroso, presente em poemas de juventude, acaba por se tornar fundamentalmente alegórico, reflectindo anseios e abstracções, mais do que uma emotividade do poeta. Poeta da razão, da revolução, mas também do pessimismo, foi um sonetista exemplar, embora sem grande imaginação do ponto de vista linguístico. Foi sobretudo na prosa, onde revela grande poder oratório, que levou a cabo o melhor da sua obra crítica e doutrinária, na análise da filosofia da história portuguesa e na crítica do positivismo então dominante, a que opunha a necessidade de uma consciência espiritual no mundo. A esta concepção está ligada a ideia de santidade que sempre o dominou - não no sentido religioso cristão, mas com expressão no seu espírito combativo, numa epopeia da humanidade e na revolução, na sua fase combativa; e, em princípio e fim de vida, num apelo místico interior. Entre os seus textos de polémica e ensaio de maior relevo contam-se o folheto “A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais” (polémica travada com Castilho) e Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX (1890). Pela sua envergadura intelectual, pela perfeição da sua técnica do soneto e pelo seu contributo para a história das ideias, é um dos nomes fundamentais da cultura portuguesa.
Fonte: Enciclopédia Universal, Texto Editora (Adaptado)

8º ANO: BIOGRAFIA-ALMEIDA GARRET: HISTÓRIA DE PORTUGAL:ROMANTISMO

Almeida Garrett

Uma viagem pela vida e obra de um dos mais marcantes protagonistas do Primeiro Romantismo em Portugal, acompanhada de excertos de algumas das suas obras e comentários de alguns dos mais ilustres representantes das nossas Letras.
João Baptista da Silva Leitão,

Almeida GarrettJoão Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Em 4 de Fevereiro de 1799, nasceu no Porto João Baptista da Silva Leitão, ainda não de Almeida Garrett. A sua infância, muito marcada pela vivência das quintas do Castelo e do Sardão e pelas histórias, contos e lendas da velha Brígida e de Rosa de Lima, alimentou desde logo o seu imaginário de futuro escritor romântico. Também o seu perfil político tem já o seu embrião nesta infância vivida na cidade do Porto: na feira de São Lázaro, João Baptista não compra “registos de santos”, como os outros rapazes, mas o retrato de Napoleão Bonaparte. Napoleão e as suas invasões de Portugal determinam a fuga da família de Garrett para os Açores, ilha Terceira, onde, jovem, vai ser educado, em estritos moldes clássicos, por seu tio, o bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Família. A família destina-o à carreira eclesiástica, mas o jovem Garrett resiste e vai cumprir o seu percurso de estudante de leis em Coimbra. Em Coimbra, jovem e activo, estuda para se formar em leis, mas simultaneamente conspira em favor do liberalismo, escreve, publica, faz teatro. Começa a emergir como homem de letras e homem político, figura pública, que há de ser uma das mais importantes do nosso Romantismo e do nosso Liberalismo. O seu envolvimento político do lado liberal leva-o ao exílio, e a fazer parte daquele grupo de bravos que, comandados por D. Pedro, se juntam no exílio, se organizam na ilha Terceira, desembarcam no Mindelo, lutam no Porto, participam no esforço para implantar em Portugal uma monarquia constitucional, depois de um período conturbado de guerras civis. A sua obra literária vai também sendo produzida. Desde as suas produções juvenis, ainda em moldes clássicos determinados pela sua formação (Catão; Retrato de Vénus), passando pelo momento crucial da publicação, no exílio, de poemas já românticos (Camões; D. Branca), que vão ter sequência numa produção constante, quer em verso, quer em prosa; quer lírica, quer dramática, quer narrativa: Flores sem Fruto; Um Auto de Gil Vicente; O Alfageme de Santarém; O Arco de Sant’Ana, até às obras primas da maturidade: Frei Luís de Sousa; Viagens na Minha Terra; Folhas Caídas. Paralelamente empenha-se na revitalização do teatro português e na reforma da instrução pública.Afirma-se, é reconhecido, torna-se uma figura importante no panorama nacional: é deputado, embaixador, ministro e, finalmente, agraciado com o título de visconde, ao qual associa o nome de Garrett, obscuramente descoberto numa ascendência irlandesa: Visconde de Almeida Garrett.A vertente sentimental da sua vida não é menos interessante. Múltiplas e intensas paixões e desenganos tecem a vida de Garrett: Luísa Cândida Midosi, Adelaide Pastor, Rosa Montufar, são os mais conhecidos amores no seu percurso de homem romântico.Esta vida intensamente vivida esfuma-se aos 55 anos de idade, em 9 de Dezembro de 1854. Estávamos a meio do século XIX e, com esta primeira metade do século, encerrava-se a vida do 1.º Romantismo Português de que Garrett foi um dos grandes obreiros e mentores.

A Obra Literária
POESIA· O Retrato de Vénus, Coimbra, 1822· Camões, Paris, 1825· D. Branca, Paris, 1826· Adosinda, Londres, 1828· Lírica de João Mínimo, Londres, 1829· Romanceiro, 1.º vol., Lisboa, 1843· Flores sem Fruto, Lisboa, 1845· Romanceiro, 2.º vol., Lisboa, 1851· Folhas Caídas, Lisboa, 1853
OUTRAS OBRAS· Da Educação, Londres, 1829· Portugal na Balança da Europa, 1830· Discursos Parlamentares e Memórias Biográficas, Lisboa, 1871
FICÇÃO NARRATIVA· O Arco de Sant’Ana, 2 vols., Lisboa, 1845 e 1851· Viagens na Minha Terra, Lisboa, 1846
TEATRO· Um Auto de Gil Vicente (com a Mérope), Lisboa, 1841· O Alfageme de Santarém, Lisboa, 1842· Frei Luís de Sousa, Lisboa, 1844· Tio Simplício, Lisboa, 1844· Falar Verdade a Mentir, Lisboa, 1845· D. Filipa de Vilhena, Lisboa, 1846· A Sobrinha do Marquês, (com as Profecias do Bandarra e Um Noivado no Dafundo), Lisboa, 1848· Camões no Rossio, Lisboa, 1852

sábado, 10 de maio de 2008

8º ANO: BIOGRAFIA-PEDRO NUNES: HISTÓRIA DE PORTUGAL

Biografia de Pedro Nunes
Pedro Nunes ficará na História de Portugal como uma das figuras mais representativas das Matemáticas em Portugal e como inventor do nónio, um instrumento empregado em aparelhos de Astronomia, Física e Engenharia que se destina a avaliar grandezas lineares ou angulares que escapam à visão directa. O grande matemático português nasceu em Alcácer do Sal, antiga Salácia, no ano de 1502 e faleceu em Coimbra no dia 11 de Agosto de 1578.Devido ao pouco rigor documental da época e, principalmente, ao facto de existirem muitos homónimos de Pedro Nunes, as informações rigorosas e totalmente verosímeis sobre o matemático são escassas.Embora tudo se ignore sobre os seus pais ou os seus irmãos (se é que os teve), sabe-se que Pedro Nunes era cristão-novo. Facto curioso é que, apesar da sua origem judaica, nem Pedro Nunes nem os seus filhos foram, alguma vez, perseguidos pela Inquisição.Também da infância e adolescência de Pedro Nunes nada é conhecido. Pensa-se que tenha iniciado o seu percurso escolar em Portugal, onde terá aprendido as primeiras letras, o latim e as disciplinas do curso das Artes. É crença geral que tenha sido em Salamanca que o grande matemático português tenha iniciado os estudos universitários, por volta de 1521 ou 1522.A Universidade de Salamanca gozava então da maior fama e era considerada a primeira da Península Ibérica. Não se conhecem quaisquer documentos que comprovem a frequência de Pedro Nunes nesta Universidade mas admite-se que ele fosse lá aluno livre. Apesar de se terem perdido os livros de matrícula da época, que poderiam comprovar a passagem de Pedro Nunes por esta Universidade, a hipótese que se aponta como mais consistente é a de que Pedro Nunes se tenha licenciado em Artes, estudado Matemáticas e frequentado algumas cadeiras de Medicina, alcançando, porventura, o grau de bacharel nesta Faculdade. As disciplinas necessárias ao bacharelato em Artes, como, por exemplo, a Gramática, terão sido estudadas, provavelmente, em Portugal. Quanto às cadeiras referentes à licenciatura, nomeadamente a Lógica, a Filosofia Natural e a Filosofia Moral, crê-se que as tenha estudado em Salamanca. Esta hipótese explica o quadro de cadeiras que Pedro Nunes viria a leccionar aquando do seu regresso a Lisboa.Quase certa é também a hipótese de Pedro Nunes, além das disciplinas filosóficas, ter estudado também Matemáticas em Salamanca, onde a cadeira, que era designada de Astrologia, tinha por objecto principal a Teoria da Esfera e como disciplinas propedêuticas a Aritmética, a Geometria e a Perspectiva.Também os seus estudos de Medicina terão sido iniciados em Salamanca. A Universidade de Salamanca era, então, a preferida dos estudantes portugueses de Artes e de Medicina e tudo indica que também Pedro Nunes a tenha preferido para estes estudos. O que não se sabe é se terá concluído o bacharelato em Medicina em Salamanca ou em Lisboa pois só existem documentos que comprovam a sua licenciatura e doutoramento em Lisboa e não há registos de onde se terá formado bacharel.Se a sua frequência da Universidade de Salamanca é um dado praticamente adquirido, a sua possível passagem pela Universidade de Alcalá de Henares é, até hoje, uma mera conjectura, que não encontra argumentos documentados.Foi durante a sua permanência em Salamanca que contraiu matrimónio, em 1523, com uma castelhana de nome D. Guiomar de Areas (Aryas ou Arias), filha de Pedro Fernandes de Areas, um cristão velho.Do seu casamento nasceram quatro filhas (D. Isabel da Cunha, D. Briolanja, D. Guiomar Coimbra e D. Francisca) e dois filhos (Pedro Areas e Apolónio Nunes).Se o ano da ida de Pedro Nunes para Espanha é incerto, também o é a data de regresso. Como ponto de referência, apenas temos a data de 16 de Novembro de 1529, que marca a sua nomeação para cosmógrafo do Reino, o que mostra que, nessa data, já teria regressado à Corte.O facto de ter sido nomeado para cosmógrafo oficial prova que já então se devia evidenciar em estudos de Astronomia. Na verdade, os estudos de Medicina devem ter-lhe dados os conhecimentos astronómicos, que os médicos da época precisavam de ter para os aplicarem à clínica astrológica.Pedro Nunes era um apaixonado tanto pela Astronomia como pela Matemática, que teve de estudar a fundo para poder desenvolver os seus conhecimentos astronómicos.Em Dezembro de 1529, no mesmo ano em que assumiu o cargo de cosmógrafo, Pedro Nunes ficou responsável por uma cadeira de Filosofia Moral, da Universidade de Lisboa. Em Janeiro de 1930, fica encarregue da cadeira de Lógica e, em 1531 e 1532, da cadeira de Metafísica.Em 1531, foi convidado por D. João III para ser professor dos seus irmãos D. Luís e D. Henrique (futuro cardeal inquisidor, possivelmente o responsável pela imunidade de que Pedro Nunes e os seus descendentes gozavam face ao Tribunal do Santo Ofício).A 16 de Fevereiro de 1532, obteve a licenciatura em Medicina, pela Universidade de Lisboa.A 16 de Outubro de 1544, foi passada a Pedro Nunes a provisão para “ler a cadeira” de Matemática na Universidade de Coimbra, que, em 1537 fora transferida de Lisboa para aquela cidade.Começa, então, uma nova fase na vida de Pedro Nunes que, em Coimbra, estabelece residência fixa, acrescentando aos deveres que mantinha em relação ao cargo de cosmógrafo (e que o ligavam a Lisboa) as obrigações do magistério em Coimbra. Foi em Coimbra que conseguiu o ambiente propício ao desenvolvimento e à revisão definitiva da sua obra.Entretanto, em 22 de Dezembro de 1547, foi nomeado cosmógrafo-mor do Reino, tendo sido a primeira pessoa nomeada para este novo e importante cargo.Foi professor da Universidade de Coimbra até ser jubilado em 4 de Fevereiro de 1562.Durante todos estes anos de actividade, Pedro Nunes não parou de acumular cargos. Exerceu o cargo de cosmógrafo, o magistério universitário, a actividade docente e administrativa e o trabalho de criação e revisão da obra que até então produzira, fosse em forma de traduções anotadas ou de manuscritos originais.Não é, pois, de estranhar, que Pedro Nunes fosse uma figura imensamente respeitada em vários sectores da sociedade portuguesa da época.Manteve a sua residência oficial em Coimbra até falecer, embora se deslocasse várias vezes a Lisboa a pedido de D. João III. As suas deslocações a Lisboa eram no âmbito do seu cargo de cosmógrafo e aconteciam quase sempre na altura da Primavera, quando as naus se preparavam para as viagens de longo curso.

Obra de Pedro Nunes

Pedro Nunes é sobretudo conhecido pelas obras que publicou, onde se revelou como eminente cosmógrafo, físico, cosmólogo, geómetra, e algebrista.A sua obra consiste em:- traduções anotadas ou comentadas;- trabalhos originais.Em todas ficou bem vincado o seu prodigioso génio. Mesmo as suas traduções eram bem acompanhadas de notas ou de comentários pessoais aos passos mais obscuros e aos de mais difícil interpretação.É devido às suas obras que se considera Pedro Nunes como o mais genial matemático peninsular do séc. XVI, um dos maiores matemáticos mundiais do mesmo século e a maior glória matemática portuguesa de todos os tempos.Obras impressas:
Em 1537 - Tratado da EsferaInclui:- Tratado da Sphera - Theorica do Sol e da Lua, de Purbachio- Livro primeiro da Geographia de Ptolomeu- Tratado sobre certas duvidas de Navegacao - Tratado em defensam da carta de Marear
Entre 1537 e 1542 - Astronomi Introductorii de Sphaera Epitome
Em 1542 - Crepusculis Libri Unus (Esta foi uma das obras que mais reputação lhe conferiu nos meios científicos. É nesta obra que Pedro Nunes descreve o nónio, uma peça acessória graduada em graus, minutos e segundos que Pedro Nunes pensou juntar à linha do astrolábio náutico com o fim de medir fracções do grau. O nónio destinava-se às observações dos astros e servia para determinar rigorosamente as suas alturas.)
Em 1546 - Erratis Orontii Finaei
Em 1566 - Petri Nonii Salaciensis Inclui:- Rerum astronomicum Problemata Geometrica. - De Regulis et Instrumentis [...] - In Theorica Planetarum Georgii Purbachii
Em 1567 - Libro de Algebra en Aritmetica e Geometria Anvers (a primeira obra dedicada exclusivamente a questões de Álgebra publicada em Portugal).
Em 1571 - De Crepusculis Libri Unus
Em 1571 - De Erratis Orontii Finaei Conimbricae
Em 1573 - De arte atque ratione navigandi
Em 1592 - Petri Nonii Salaciensis Opera BasileiaManuscritos: Defensam do Tratado de Rumação do Globo para a Arte de Navegar Obras de que apenas há notícia:- Geometria dos triangulos spheraes - De ortu et occasu signorum - De astrolabio opus demonstratiuum - De planisphaerio geometrico - De globo delineando ad nauigandi artem - Traducao do De Architectura, de Vitrúvio Nónio